Opinitivo e Pessoal

A morte nos nivela. O que nos diferencia são os detalhes da morte


Hoje, 08 de outubro de 2014 faz um ano que chegamos da viagem em que vi, abracei, beijei e recebi a última benção de meu pai. Meu filho primogênito disse que foi o dia mais estranho da vida dele. Disse-me que não consegue chorar em situações assim. Ele tem os motivos e razões para viver e agir do jeito e modo que vive e age.

Eu não! Não corro das emoções nem dos eventos que me faça ir de um extremo a outro. No entanto, não sou de ir a velórios; e tão pouco sou de ir a festas. Tenho também meus motivos e razões.

Quando chegamos de Nanuque, em que tive fortes emoções na despedida a meu pai. Me emocionou vê-lo naquelas condições tão extremas em que, por debilidades diversas, um ser humano chega. Às vezes eu questiono o quanto é benéfico, útil, salutar, sóbrio, de bom senso, deixamos nossos entes permanecerem em situações análogas.

Lembrei-me de Jack Chervokian e de como lutou para que pessoas em situações semelhantes tivesse o direito de interromper sua vida. Mas, nosso mundo é deveras estranho. Enquanto o Estado, e as leis, nos impedem de ter a morte para nos aliviar de dores e tormentos, angústias e sofrimentos, é o mesmo Estado, que debate e quer o direito ao aborto, e ao uso de certas substâncias atualmente classificadas como ilícitas.

Bem! Meu pai morreu. Fez um ano ontem que o vi vivo. O beijei. Abracei. Chorei. Sair. Vim embora. Só recebi as informações de como foram as horas finais, o que disse, como terminou aquele que por muitos anos foi o homem que me gerou, criou, educou e transformou-me na pessoa que sou. Com qualidades e defeitos. Virtudes e vícios.

Não vejo a morte como algo ruim. É algo bom poder morrer. Nas condições em que se vive, nas situações em que se está, as vezes, morrer é aceitável e desejável. Noutras a morte é por demais trágica. Enquanto meu pai passou anos e anos para chegar em seu dia derradeiro, minha sogra, foi levada, sem um aviso de que ela estava tão próxima e tão iminente. A morte é assim, esta contradição! Há quem espera-a por muito tempo e ela não vem. Outros que esperamos viver longevamente é levado na flor da idade.

Morrer não é ruim para quem morre. Morrer é ruim para a maioria de nós, por que a morte põe fim uma contagem, e se tem que começar nova contagem. A maioria de nós, não queremos recomeçar. Principalmente contar os dias, as semanas, os meses, os anos, as décadas que alguém que amamos tenha morrido. Ainda que a pessoa que amamos esteja em agonia e em sofrimento, somos egoístas o suficiente para mantê-los em equipamentos e tomando certas substâncias para os manter respirando, na esperança de que aconteça algo, e este nosso ente, volte a ser o que não pode voltar a ser: jovem, saudável e com longos anos a viver.

Eu sofro com a morte. Me tortura imaginar que todos estamos sujeitos a morrer. Não há, lógica para a morte. Quando ela chega, não importa quem é a pessoa. Se sou pai. Se sou filho. Se tenho contas a pagar amanhã, nem se tenho contas a receber. Ela chega e nos arrebata. É assim. É triste. É trágico as vezes. Mas, vos garanto, que a morte é isso. Leva a todos. Sem distinção de classe, fama, cor, religião, beleza, riqueza, altura, peso. Ela chega para todos.

A morte é que nos nivela. E nos nivela em um só ponto: mortalidade. O que difere de um para outro são os detalhes.

10 comentários em “A morte nos nivela. O que nos diferencia são os detalhes da morte

  1. Oi, Adão!
    Eu criei uma relação muito boa com a morte à partir da morte da minha mãe, mas não gostaria mais de ver quem eu amo partir. Espero partir primeiro😀 reforçando a sua afirmativa.
    A fé nos ajuda demais. Ela nos dá a força necessária para os momentos extremos. Eu entendo o seu filho… Acho que ele fica naquele estado de que a ficha não caiu, meio entorpecido. Só o tempo nos dá a consciência do real tamanho da circunstância.
    Agradeça por ter conseguido despedir-se do seu pai. Eu não consegui despedir dos meus. Meu pai, eu era muito criança e a minha mãe estava em coma quando cheguei e assim permaneceu até morrer.
    Muitos médicos praticam a eutanásia sem que os parentes saibam, outros mesmo sabendo que o paciente não terá sobrevida, mantém nos aparelhos, talvez por esperança, mas na maioria das vezes porque são mercenários.
    Beijus,

  2. “Morrer não é ruim para quem morre.” A verdade está toda nessa sentença. Infeliz é o homem que não consegue morrer. Certa vez vi num vídeo um professor brasileiro de filosofia argumentando sobre o amor, e ele disse algo que ficou marcado em mim, visto que faz sentido sentirmos melancolia quando perdemos um ente querido. “O amor é o desejo [eros] daquilo que não temos e queremos ter.” Isso se resume naquele ditado “Passamos a dar mais valor quando perdemos.”

    1. Não se tem noticias de que os mortos reclamam por ter morrido! De ter morrido! Ou não podem voltar, ou não querem voltar.
      Na parábola que Jesus republicou, um morto queria voltar para avisar OAS VIVOS para mudar a vida, para não prejudicar o estado de morte. Assim, há uma possibilidade de não poderem voltar.
      A resposta foi: Eles tem informações suficientes para viver bem, e ter uma morte digna!

  3. Meu caro amigo, quando era menino lá pelas Minas, diziam que falar de morte só bom para as bandas de lá. Ninguém quer mesmo falar da morte, somos para a vida e esquecemos que vida e morte estão o tempo todo juntas como num jogo. Eu convivi com a morte desde cedo, deve ser por causa de ser uma família de muitos idosos naqueles anos 60 e assim nem cheguei a conhecer meus avós pela parte de mãe.Já pelo lado paterno convivi longos anos com a mãe do meu pai e perdê-la foi algo muito ruim. Depois comecei a perder pessoas novas e próximas. Meu pai religioso sempre pregava que não se devia chorar por morte e eu calado calei minhas perdas. Saber que vamos morrer as vezes cria um incomodo. Outros se preocupam com a incerteza de quando e como ela virá e sofrem no intervalo onde deve-se viver e deixar que se cumpra a sequencia.
    Mas por outro lado assistir o sofrimento de familiares e ou amigos nos faz pensar na eutanásia. E assim somos levados a reflexão sobre o aborto que parece uma casca de banana no chão com choques, quando na realidade deveria ser uma decisão da pessoa, mas há que educar para que não chegue a esta situação exceto para os casos de estupros. Enfim sua cronica é recheada de vários temas polêmicos e bons para uma reflexão e debate,como a proibição às drogas, que ainda não são bem definidas, umas aceitáveis outras livremente circulando na sociedade. Assim concentra fogo no cigarro e deixa de lado a bebida alcoólica que tem feito estragos na humanidade. o que há é muita hipocrisia nas campanhas dos governos que se alimentam com os impostos destas.
    Que a semana esteja a fluir levemente com paz.
    Meu abraço.

    1. Ano passado Chica, ocorreram muitas mortes em nossa família. Avô de Kátia, minha vó, meu pai, minha sogra, dois tios de Kátia, outros parentes e amigos.

      Mas o que podemos fazer quando ela chega? Velório e sepultamento.

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