Opinitivo e Pessoal

Cativos e escravos da frase: “Eu te amo”


Certa vez liguei para minha mãe e em choro copioso e desconsolado reclamei que até então ninguém, nenhuma pessoa, nunca ninguém havia dito para mim: “EU TE AMO!”. Eu já era adulto! Já havia namorado. Estava noivo! Estava a poucos meses de casar-me. Minha irmã Ana Maria me indagou: “Nem sua noiva? Ela nunca disse te amar?” – Desde então, todas as pessoas de minha família: mãe, irmãs e irmãos fazem questão de, ao conversar comigo, seja por telefone, e-mail ou cara-a-cara dizem de alguma forma: “eu te amo”.

Não confio no amor. Não acredito no amor falado. Não me é crível o amor declamado. Não sou dos que acredita e advoga o que atualmente se diz como importante, a saber: todos dos dias ou com certa frequência declarar amor as pessoas amadas. Ao longo destes anos me vi obrigado a estudar, a analisar o que é amor, e os por quês se instituiu a obrigação de dizermos sempre a frase, ainda que mecanicamente: “Eu te amo”. Tudo não passa de uma incorreta mudança de demonstração de amor. É a minha tese.

Amor como necessidades supridas.

Quando recém nascidos o que é que entendemos e sentimos como amor? Você pode dizer que não sabe! Você pode dizer que não se lembra. Sendo assim, pergunte a si mesmo e tente responder a seguinte pergunta:

– “Um bebê recém-nascido saberia diferenciar uma atitude de amor de uma atitude perversa?” Um bebê bem cuidado sabe que está sendo amado e um bebê “jogado no lixo” – abandonado – sabe que está sendo rejeitado?

Sei que a resposta não é fácil. Afinal, iriamos adentrar em questões de psicologia, psiquiatria, teorias de Vygotsky e de Piaget quanto ao desenvolvimento cognitivo das crianças. Mas, sem adentrar nestes campos do conhecimento e dos estudos, é fácil aceitar a ideia de que neste período da vida o que se entende por amor seria o mesmo que: conforto, cuidado, proteção e sobretudo, necessidades básicas supridas: água, alimento, proteção, higiene, socialização.

Por faltar ao recém-nascido conhecimentos básicos da sociedade, evidente que o mesmo há de se sentir “amado” por quem supre suas necessidades básicas. Mas, esta situação muda. É tanto, que a medida que as crianças ao irem crescendo, e tendo noções básicas da sociedade, seus conceitos de amor sofrem mudanças. Dentro de poucos anos, é possível, que dentro do contexto em que se vive, as crianças já saibam diferenciar o que são os sentimentos e o que são as obrigações sociais. Amor é algo diferente de suprir necessidade. Ou não? Amor é algo diferente de proteger? Amor é diferente de cuidar? Amor é diferente de dar orientar, educar, aconselhar?

Então dentro do contexto, qual é a importância de se ouvir: “eu te amo?” – Sei apenas que se criou esta necessidade de se dizer às pessoas tal frase. Por outro lado: não é suficiente proteger, suprir, cuidar, orientar, estar ao lado, respeitar, acompanhar, fazer-se presente, incentivar, torcer … se não dizer: “eu te amo!”! Tudo isto é sem significado. É como ações, atitudes, demonstrações artísticas num circo sem plateia. É como uma atuação teatral magnifica sem haver público.

Amor como desejos realizados.

 

Na adolescência com a efervescência hormonal demonstração de amor é visto como desejos realizados, beijos recebidos, demonstrações públicas de que não tem vergonha; ainda mais, demonstrações públicas de que se gosta de estar com tal pessoa. Nesta fase da vida, amor é carnal; amor é desejo; Na teoria Tomista: , “é o desejo de prazer gerado por uma realidade física, material”. E no Agostinismo: “é a luxúria carnal, são os desejos libidinosos” E, também no dicionário Houaiss: “é o anelo de prazeres sensuais”.

 

Em todas as fases da vida se exige, a conduta, a exposição, a revelação, a demonstração, a ação e sobretudo o testemunho: “eu te amo”. Eu sou dos que exijo mais a conduta, a exposição, a demonstração de amor do que a verbalização. É que verbalizar nem sempre corresponde aos sentimentos. Quantas e quantas vezes ouvimos: “eu te amo” de pessoas próximas e ligadas a nós, sendo que as atitudes, as demonstrações demonstram a demagogia e a hipocrisia! Muitas vezes se fala “eu te amo” de forma dissimulada, falsa, teatralmente! Fingimento!

 

Apesar de, desde o nascimento, sabermos de que amor é alimentar, é cuidar, é suprir, é proteger, é agasalhar, é demonstração externa de atenção, carinho… com o tempo vamos sendo contaminados com um tipo de amor irreal, ilusório, hipócrita que é apenas dito; é apenas falado; é apenas repetido sem maiores significados, sem estar acompanhado das atitudes, das ações, das realizações próprias de quem ama em atos, e não em exibições teatrais.

 

Eu prefiro as demonstrações de amor do que os discursos. Eu prefiro a proteção amorosa do que incerteza de promessas: se precisar, pode contar comigo. Vivemos numa época em que se exige mais falar do que demonstrar que amamos. O pior disso, é que, somos incentivados de forma velada a sermos hipócritas. Afinal, somos incentivados a dizer: “eu te amo” sem o compromisso de fato de amar. A situação se complica mais do que se pensa, pois, somos exigidos a dizer mais “eu te amo” do que demonstrar que se ama.

 

Amor versus lógica versus violência.

 

Ainda não é uma realidade, mas, já existem os que pensam que, amor não correspondido, não deva ser quitado com ações violentas. E, desde a década de oitenta, quando me converti a um grupo e ideologia religiosa que advogava que era errado a frase: “se não for pelo amor, que seja pela dor”. É o mesmo que admitir que, se alguém não te ama, use a dor, a violência, a tortura, o abandono, a indiferença como arma, para que se crie dependência e necessidade, e então, mesmo que seja por isto, se conviva, se aceite o amor ofertado.

Ainda é comum se agir e pensar que, uma pessoa que não corresponde ao amor ofertado, não tenha direito ou que perca-se também a compaixão, a empatia, a simpatia, e que tudo seja trocado por intriga, abandono, indiferença. Ai, eu questiono: quem assim age, amava?

Não existe lógica no amor. O amor é algo que sentimos totalmente desprovido de qualquer elemento lógico, aritmético, dotado de algum senso racional e inteligente. Se ama independente destes elementos. Há homens e mulheres que morrem indo contrário ao intelecto, ao racional por pensarem que o amor os guiará a caminhos seguros, puros, lindos, belos. E nem sempre acontece. E, ainda que se tenha consciência disso tudo, se torna irresistível a atração que o amor exerce sobre todos nós.

É uma atração magnética e irresistível. E não tem uma resposta coerente para a pergunta: O que acontece quando algo um ser racional se depara com algo que não obedece às regras da racionalidade e da Inteligência?

Ainda lamento que sejamos tão dependentes mais da frase: “eu te amo” do que nos alimentamos das demonstrações de amor que a cada dia recebemos, de forma direta, indireta, concreta, abstrata, em atos, em ações, em palavras, em desejos de sucesso.


 

5 comentários em “Cativos e escravos da frase: “Eu te amo”

  1. Um belo trabalho de estudos e reflexões meu amigo. Amar é uma arte linda e complexa que devemos exercitar dia a dia. Sou da teoria de que, quem ama demonstra muito além das palavras.
    Um abração amigo.

  2. Que legal teu texto! E sabes de uma coisa? Acho chato e tri forçado o tal do EU TE AMO!! Desde que namoro o maridão( há 47 anos atrás) combinamos que nada de frases feitas e que inventaríamos as nossas e assim foi, assim é! abração,feliz dia das mães para as mães da tua família! chica

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