Opinitivo e Pessoal

Por mais tempo que se conviva, é impossível dizer que conhece a outra pessoa


Quando menino, menino mesmo, nem me lembro da data ou da faixa etária em que estava; lembro-me, no entanto, que vi a cena numa casa de um vizinho. Ele chegou à cozinha, e eu estava lá, juntamente com outros meninos e meninas, e abraçou a esposa e beijou-a nas costas e pescoços, roçando-lhe a parte traseira, pernas e nuca. Ela toda alvoroçada, inquieta, açodada, puxou a saia para baixo, e recriminou lhe de forma áspera, e aos gritos.

– João! Tenha respeito. Olha as crianças ai!

Algum tempo depois se soube que o casal se separara. O espanto da vizinhança foi o fato de ser ela, a infiel; uma vez que todos sabiam e conheciam a fama de ser uma mulher recatada, simples, sonsa, Como descreve o dicionário: “que ou aquele que finge não ter defeitos ou se faz de simplória, palerma, inocente, mas faz coisas reprováveis dissimuladamente ou pelas costas; manhosa, dissimulada, santa do pau oco” … e outras variantes. Soube-se que por muitos anos ela manteve um caso secreto com um senhor, também conhecido como o solteirão e desinteressante das redondezas. Enganaram todos por muito tempo, mas, foram descobertos.

Sempre que me lembro deles me recordo deste episódio em que ela se preocupava com os aspectos mais triviais da moral e do recato, em especial, uma demonstração externa de evitar que as crianças vissem ou soubesse que recebia tais afagos, e mais, uma preocupação de evitar revelar o que é tão natural: a sexualidade.

Algo que me deixa chateado e preocupado no meu casamento é o fato de minha esposa estar “perdendo” o humor. As vezes falo-lhe algo que é uma simples piada, um gracejo, um modo de agradar, uma excitação boba, um pensamento fútil, uma tolice qualquer, um “devaneio tolo a me torturar” e sou repelido com palavras ásperas, atitudes grotescas, ações não esperadas.

Agora a pouco, fiz-lhe uma graça pornográfica do tipo nas seguintes palavras: “Estamos sós meu amor, como nunca antes, vem aqui, me deixa aproveitar de você”. É verdade que estamos sós! Mas, não estou desocupado. Tenho aqui dois notebooks na bancada, e não “tenho tempo” agora para “distrações” e eventos do tipo sexuais. No entanto, não significa que não sejam permitidas umas palavras picantes, umas piadas de duplo sentido.

A perca do humor feminino, ou, por outro lado, a incapacidade masculina de fazer uma mulher sentir-se leve, solta, descompromissada, muito me preocupa do tipo: Sou eu que perdi a capacidade de fazê-la sorrir, sentir-se bem, passar-lhe a impressão de que ficaremos juntos independentemente da satisfação carnal, visceral, sexual ou será ela que se tornou uma mulher insensível, frígida, egoísta, distante?

Ô Dúvida cruel pós duas décadas de convívio! Ou seja, por mais tempo que se conviva, é impossível dizer que conhece a outra parte. Deixe-me ficar aqui com minhas lembranças e desconfianças juvenis. Será que é motivo bastante e suficiente para pensar que ela age tal qual aquela outra mulher que habita minhas lembranças?

5 comentários em “Por mais tempo que se conviva, é impossível dizer que conhece a outra pessoa

  1. Oi, Adão!
    Sexualmente falando, o homem gosta de variar “posições” e a mulher de variar “lugares”. Quem sabe um jantar à dois e depois um hotel bacana? Não digo motel, porque tem mulheres que não gostam ou se sentem desvalorizadas. Tudo vai do “psicológico”, pois o sexo não começa na cama, mas sim já no café da manhã quando o homem sem ensejo sexual diz que a mulher está bonita ou a olha com um olhar mais apaixonado.
    Sobre o comportamento da sua mulher, posso dizer que não tem a ver diretamente com você. Vou repetir uma frase dita pelo Leo Jaime, no programa “Saia Justa, temporada de verão”: “A mulher feliz, reclama de tudo. Já a mulher infeliz, se cala, se retraí…” A primeira parte, remete a sua esposa, já a segunda parte remete a sua vizinha de infância.
    Boa semana!!
    Invista no romantismo!!
    Beijus,

    1. Eu sei Luma que o comportamento dela não tem a ver diretamente comigo, e, sei que as vezes tem. Mas, devo observar as circunstâncias em que ocorre um ou ocorre outro. O que repito no texto é que, por mais tempo que eu passe com ela, e ela comigo, evidente que vamos ao longo do tempo, também se metamorfoseando, e já somos diferentes do que éramos.

  2. Interessante este relato com as reflexões que insere.
    Uma verdade amigo,nunca conhecemos totalmente alguém, porque o ser humano é vário e mutante.Cada momento leva uma historia, cada emoção se reveste de outra emoção.O fato que uma coisa não se liga a outra, mas apenas nos remete às lembranças que ficaram marcadas.
    Um abração de paz e luz.
    Amanhã tudo vai ficar bem, porque tudo se renova.

    1. Adão ,gostei muito de te ler e realmente a vida pode nos mostrar surpresas de todos os tipos…Gostei de tuas dúvidas, colocações sempre bem humoradas! abraços,chica e tuuuuuuuudo de bom!!

      1. Esta vida Chica, nos leva até ao último dia, dia que fatalmente morremos. Cada um devemos encarar esta vida como pode, uns vivem acentuadamente, outros modernamente, eu prefiro viver assim, aproveitando tudo que for possível.

Comentar este texto!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s