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Uma outra Elizabeth, a Betinha!


No inicio da década de noventa, conheci uma jovem Elizabeth. Visitava-a pelo menos uma vez por semana para conversas diversas. Eram conversas longas.

Elizabeth aos 14 anos foi brincar com um revolver, e a tragédia ocorreu. O disparo atravessou seu corpo na altura do pescoço, e isto a impossibilitou de utilizar os membros inferiores. Entretanto, este evento, apesar de trágico, não a impediu de buscar o que sempre desejou.

Contrariando a vontade dos pais, amigos e familiares, todos os dias, iam para a escola. Formou-se no segundo grau, equivalente ao Nível Superior de hoje. Nesta época, era a maior graduação em diploma que se exigia no mercado de trabalho.

Ela era “amigada” com um “abestalhado”, como diziam por toda cidade. Ele sofria de algum tipo de demência. Tal condição o impedia de prosperar, evoluir, decidir, e ter um emprego. Juridicamente, poderia ser declarado incapaz.

– Sua família nunca aceitou o seu casamento hein?

– Adão, você é a única pessoa que diz que somos casados. Todo mundo aqui diz que somos amigados, amasiados. E minha família além de não aceitar, atrapalha. Eles não me entendem. Acham que eu mereço alguém melhor, mas, quem é melhor, não me quer!

– É uma situação complicada Betinha! Você encontra homens na sua situação com mulher, mas, é raro mulher em situação semelhante conseguir um homem.

– Você acha que eu nunca tentei um namorado normal, inteligente, capaz? Mas, nenhum deles me quisera. Eu achei esta criatura, que pelo que você vê, é assim, abobalhado, mas é um doce de marido. Faz tudo que eu quero!

– Você está satisfeita?

– Com ele?

– Com ele e com o seu casamento!

– Para as tarefas de homem ele é apto. Se eu pudesse teria um marido para cuidar de mim e da casa, mas não tendo, eu tenho este! E este me basta! Eu não posso me dá ao luxo, Adão!

– Ha! Ha! Ha! Ha!

– Você ri, NE!

– Achei engraçada a maneira como você falou dele.

– Veja bem Adão, ele cuida de mim, faz alguns mandados na rua, gosta de mim, é um touro, nunca me nega, não resmunga, não briga. Só é assim desligado do mundo, e é preciso ter paciência em explicar, ensinar, e esperar ele voltar para saber como é que deve fazer e falar.

– Eu vejo como a sua luta com ele! E as demais mulheres com os ditos normais, também não é? – Desta vez quem caiu na risada foi ela.

Ela tinha uma escola de datilografia. Era o cérebro. Ele a força. Ele a empurrava pela cidade. Pegava o peso. Ela recebia críticas diversas. Uma das críticas mais repetida, era a que ela aproveitava do doidinho. Sobre isto, ela comentou assim:

– Nenhuma mulher quis nada com ele. Ninguém nunca quis nada sério comigo. Éramos dois abandonados nesta cidade. Neste fim de mundo. Um dia, eu pensando comigo mesma, chamei a mãe dele, e mandei a proposta para ele. Ela conversou com ele, e mandou ele vir morar comigo, e desde então, eu sou a cabeça dele, e ele é minha força. Vivemos como podemos. Não casamos no cartório por que a lei não aceita. Não casamos na igreja porque o padre não compreende. Então, vivemos como Deus permite.

O casamento dela era assim, algo sublime. Ela tinha uma paciência com aquele homem. Mas como ela mesma dizia e repetia:

– Não foi o homem que eu queria e desejava quando jovem. Foi o homem que me sobrou. Foi o homem que eu pude ter e não o homem que eu pude escolher. E não culpo nenhum dos homens que eu quis não me querer. Eu sou maior do que isto!

Ela era educada. Culta. Inteligente. Batalhadora. Estudiosa. Lia filosofia. Estudava história. Ciências. Estudava a vida. Ela me mostrou coisas que até então nunca havia visto.

– Adão, veja bem! – Exclamava sempre – nós mulheres somos diferentes de vocês homens. Somos todos humanos. Mas, nós mulheres somos mais que humanos. Nós, mulheres, somos uma partícula de Deus. É através de nós que Deus se manifesta na vida e no amor. – Dizia sempre – Só Deus é mais do que nós. Só Deus consegue amar mais do que nós. Só Deus! – Repetia em profusão.

Ela falava dos homens cegos que tinha esposa para cuidar dele ser a luz dos olhos que ele não tinha. Homens aleijados. Homens surdos. Homens mudos.

– De todos os tipos e jeito, é possível que exista uma mulher que o deseja, que o auxilie, que o ame, mas, o contrario nem sempre é verdadeiro, porque o homem ama pouco. O homem é ligado ao que é físico, concreto, palpável.

Ela também reclamava. Reclamava por não ter conseguido sair daquela pequena cidade. Ela dependia das pessoas para se locomover. Ficou refém da vontade alheia, mas, sua mente era livre.

– Para as funções de homem, ele é bom.

Enquanto isto, ele ficava sentado num pequeno tamborete, olhando a sala e ouvindo o barulho das teclas.Ria de vez em quando. Conversava só. Depois das aulas a carregava nos braços.

– Sabe o que eu mais gosto! – Sussurrou certa tarde – É quando ele me pega no colo, não quando eu quero e peço, mas quando ele quer. Fico toda arrepiada, em pensar e saber que ele me deseja!

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7 comentários em “Uma outra Elizabeth, a Betinha!

  1. Bonita história. nem sempre o que é bom para nós é bom para o outro. As pessoas gostam muito de criticar a vida do outro sem saber que o outro é bem mais felizque eles. E sabe de uma coisa? Acho que todos que se dão o trabalho de criticar o outro, está tão infeliz com a própria vida que fica se metendo na dos outros, né? E é tão bom ouvir… Ouvi tantas histórias de marinheiros nessa viagem, que eu me apaioxnei por todos eles, cada história, cada vivência, cada coisinha compartilhada comigo que acabei fazendo muitos amigos na viagem, só por ouvir. e ouvir é tão bom… Amigo, se quiser linkar o diariosdenavio.wordpress.com fique a vontade. Estou querendo divulga-lo, ainda esta meio paradinho, mas juro que a historia ficará mais interessante com o tempo. beijos!

  2. http://deiamundoafora.blogspot.com/2008/09/nudez-dos-atletas-paraolimpicos.html

    Olha o que a Deia do Mundo a Fora colocou. Um ensaio fotografico nú com atletas paraolimpicos. Que crueldade pensar que eles não possam ser amados, desejados….”gente pequena que pensa assim”. E se formos citar exemplos mundo a fora…te digo: deficiente sou eu….

    Beijos queridão!!! cheguei de viagem e vou descansar um pouco antes de cair nos estudos.

    Saudades

  3. Sabe o que acho bonito no casal? Quando as conquistas e reconquistas estão muito além dos atributos fisicos, sexuais, intelectuais.

    No meu colegial…o garoto mais bonito do colégio namorava uma menina com polio. Era lindo de ver os dois juntos…acabaram casando. Mais recentemente, no caldeirão do huck, passou uma história igualmente linda de mulher que teve paralisia depois de uma bala perdida e mesmo assim soube conquistar o grande amor da vida dela. Hoje é casada com ele e tem dois filhos. O pedido de namoro dos dois foi no hospital enquanto ela passava por uma das cirurgias. Foi uma belissima história contada pelo programa “Lar Doce Lar”

    Recentemente li uma matéria de uma down e um altista que se uniram e tiveram um lindo filho “normalissimo”. Enfim…não vejo que foram sobras o encontro dos dois…acho essa colocação pesada, pois acho possivel sim um amor assim, ou ser construido dessa forma. Espero que ainda estejam juntos e tenham tido lindos filhos…

    Beijos Saudosos

  4. Soa bonito isso, Adão! Mas como a colega daí de cima isso de “foi o que sobrou pra mim” soa estranho tbm! Mas uma coisa é certa: ela achou um amor, né?
    Seus textos estão ótimos. E eu continuo te lendo de longe, rs…
    Grande abraço.

  5. Sério, li mais de uma vez e ainda não sei que conclusão tirar disso.
    Os diálogos que descreveu tornam as coisas tão simples, parecem fáceis… Mas eu tenho certeza que não foi assim.
    Não é qquer um que simplesmente aceita o que “sobrou”. Não é qquer um que é resignado o bastante pra ser feliz assim, com o pouco que ficou da vida.
    Ela merece os parabéns pela vida, pela felicidade, e pelo “jeitinho” que encontrou para continuar.

    Beijos

  6. Nossa! Que historia linda!
    So creio que nao seja: “O que me sobrou”. É exatamente o que ela merece.
    Me encontrei em varias passagens desse texto. O que me salva, é que dei um basta na minha familia e me assumi.
    Mande um beijo a sua amiga. Diga que a vida é efemera mesmo.

    saudadica de vc, como esta o Kaio?

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