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Honra e Amor


Naquela manhã de sexta-feira de 1998, havia chegado mercadoria. Montar todas as máquinas e entregrar antes do escucer não seria tarefa rápida. Mesmo estando atarefado, chamei para a sala de montagem meu amigo, Flin. Apelido carinhoso pela enorme semelhança que ele tem com Fred Flintstones.

Nossas conversas nunca tiveram um tema principal. Havia dias que debatiamos ferrenhamente sobre algum tema filosofico, noutros dias, conversamos sobre futebol, biologia, quimica, física, astrologia, teorias diversas.

Naquele dia entretanto, ele contou-me parte de sua história, e assim me relatou, ainda que, não me lembre, o fio que o tenha levado a tal narrativa.

– Eu por exemplo, já levei diversas tapas na cara. Há uns dez anos, fui a um advogado e preparei com ele toda a papelada do divórcio, e levei para casa. Havia planejado tudo. Não estava mais suportando a vida de casado com Galega, e resolvi, mediante o planejamento, entrar com o divórcio. As crianças já estavam todas criadas. Não havia compromissos, ou planos futuros.

– Porque ela não aceitou, porque vocês continuam juntos até hoje!

– Não foi ela quem não aceitou. Foi a vida que me deu uma rasteira. Quando eu cheguei em casa com a papelada, encontrei ela chorando. E pensei: “ela já sabe! Bem que eu não poderia confiar naquele advogado!”.

– Ela sabia mesmo? Indaguei, enquanto apertava mais um parafuso.

– Não! Ela não sabia. Ela me disse em soluços, que ia morrer. Que os exames havia apresentados uns nódulos nos dois seios, e que eram malignos, que era preciso fazer o tratamento, e que o câncer ia matá-la.

– Complicado! E, a papelada? O que você fez com ela.

– Guardei, e tá lá até hoje mocofoiado. Naquele momento não tinha como apresentar para ela. Eu não iria abandoná-la naquele momento, naquele estado, nesta situação. Apesar de nosso casamento ter caido num marasmo, minha atitude pioraria a situação dela.

– Verdade. Atitude nobre a sua.

– Eu pensei: Se eu deixo-a hoje, seguindo os meus planos, deixarei a impressão que estou aproveitando a doença dela para cair fora. E, também, por uma questão de justiça para com ela, afinal, quantas vezes ela me auxiliou noutros momentos de dificuldades comigo, sem ter me abandonado.

– Seria ingratidão também!

– Passamos sete anos lutando contra a doença. Cuidei dela. Auxiliei. Fiquei junto. E, então, pude reaver aquela menina que me cativou quando jovem. Ela não tinha mudado. Eu é que não enxergava. Eu é que estava olhando para outros aspectos e coisas que me incomodava mais do que as coisas boas que ela me proporcionava. Foram minhas perspectivas que mudaram.

– O que por exemplo?

– Ela nunca foi dada a grandes coisas da vida. Sempre teve uma vida simples. Sempre se contentou com o pouco. Sempre foi sem maldade, sem malicia. Sem preocupações futuras. Uma pessoa atipica paras os dias de hoje. Se ela estiver, por exemplo, passando roupa, e lembrar de algo, ela deixa tudo, e vai fazer  o que lembrou, porque se deixar, mesmo que escreva num bloquinho de notas, ela não fará. Ela habituou-se a fazer, e a realizar, as tarefas urgentes, e não aquilo que julgamos ser o mais necessário.

– E depois da cura, porque não a deixou?

– Agora eu não quero mais larga-la. Minha honra, herdada de meu pai, me fez ver que o amor pode usar qualquer regra, qualquer lei para prevalecer. Eu pensava que não mais a amava, mas estava enganado. Eu pensava que ela não confiava mais em mim, mas, descobrir, que era eu quem não via a confiança que ela depositava em mim. Foi preciso esta doença para me mostrar que ela é importante para mim.

Tempos depois, ele foi igreja, apesar de ser ateu, e realizou o sonho dela: – casar-se na igreja, e receber as bençãos divinas através do padre. Ela agora diz que é uma mulher realizada, e completamente casada.

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6 comentários em “Honra e Amor

  1. Adão…eu conheci um cara…aliás…depois ele virou um grande amigo meu que esteve prestes de uma separação…ai ele descobriu que a mulher tinha cancer no seio…ficou ao lado dela…quando ela estava boa…ele se separou.

    Enfim…quando há amor o próprio tempo dá um jeito para que esse amor renasça, regojize. Quando não há….não haverá nada que segure um fracassado casamento e o mesmo tempo que se encarregou de fortalecer uma união, como essa do texto; será o mesmo que se encarregará de encerrar outras uniões..

    beijos
    E ainda bem que ele redescobriu o amor na sua vida ….e o amor que ainda existia dentro dele por ela.

  2. Geralmente quando uma familia está muito desunida, uma criança adoece, mas essa de esposa primeira vez que vejo, mas no final foi bom, pelo menos ele se achou na doença dela, as vezes a vida põe uns espelhos estranhos em nossa frente…..
    Tenho verdadeiro pavor desses espelhos.

    mudando de assunto, eu tava chapadona, kkkkkkkkkkkk

  3. Quando o sentimento parece ter ido pra cucuias e ainda assim há respeito, persistenci é que me parece ser realmente amor… Mas sei tão pouco dele que não sei se poderia falar mais que isso….
    Belo post!

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