Assuntos Aleatórios

Oprimidas.


mulher_burca.jpgCheguei ao escritório para atender ao chamado. A internet simplesmente não queria funcionar naquele escritório. Como na empresa, todos os canais estavam funcionando, o problema parecia mesmo estar lá no PC, ou na rede do cliente. E de fato, era o Modem ADSL que estava desligado.

Mas, entrando no escritório deparei-me com a secretária enxugando as lágrimas e tentando esconder o choro, mas foi inevitável. A maquiagem toda borrada denunciava que ela esteve chorando, aquele choro reprimido, vergonhoso. Que é para ninguém ficar sabendo.

– Olá Adão! Bom dia, tudo bem? – Cumprimentou-me como aprendeu no curso de secretáriado do Sebrae, e continuou: – Resolve isto para nós, que estamos precisando transferir uns documentos, e consultar a 5ª TRT, para pegar uns resultados de alguns processos.

– Bom dia! Resolvo e já volto! Me diz, o que mesmo tá acontecendo? Algum assédio? – Puxei a conversa, enquanto localizava o problema.

– Não é nada não! Besteira de mulher!

– Eu sei que é besteira de mulher, mas é uma besteira assim tão grande que você não pode falar?

– Não, não é nada daqui do trabalho não!

– Sei, então é em casa! – Afirmei – E por acaso, é com as crianças? Problemas no casamento? Brigou com o maridão? – Toquei na ferida e ela tentou recuar.

Contrariando o que a DM, disse lá no tópico sobre os Clube do Bolinha bovino, ou seja:

“Quando nos reunimos entre amigas leais e companheiras, (eu disse leais e companheiras) simplesmente falamos de tudo sem qualquer preconceito, até mesmo do que rola entre as “quatro paredes do curral bovino” juntamente com nossos “bois” titulares, sejam eles maridos,namorados, rolos e afins. E o papo é por vezes muito divertido, porque entre vacas, não existe qualquer tipo de censura prévia, sequer esse medo, “em tese” de que alguma das vacas amigas ali reunidas, vai cobiçar o marido da outra.”

Pena que essa conduta não seja um padrão universal. E esta que encontrei, estava em dificuldades, e sem uma amiga com quem dividir seu fardo e ou alguém para partilhar suas dúvidas.

– E, essa sua situação, desde quando você vem sofrendo?

– Desde sempre – Afirmou ela.

– Você não tem nenhuma pessoa para convesar sobre o assunto? Sua mãe, irmã, colega, amiga de infância?

– Ah! já tentei, mas umas duas com quem troquei idéias, disse que é tudo assim mesmo.

– Não minha querida. Essa situação não é normal não! Essa sua subordinação e opressão sexual, essa imposição que você está sofrendo é anormal. Você não precisa se submeter a estes maus tratos que ele diz ser demonstração de amor. Não! Definitivamente, não é!

Infelizmente, por mais que se esforce, certas liberdades que o conhecimento trás, não chega com a devida intensidade nalguns cabeças e nalguns lugares, simplesmente não se divulgam.

Algumas pessoas simplesmente tem vergonha que alguém a chame de prá-frente, ousada, moderninha, e qualquer outro rótulo que não seja aqueles padronizados.

Fiquei penalizado ante a situação dela. Ela não precisou detalhar e se expor. Bastou dizer que era dolorido, sofrido, e que ela, não suportava a situação, que se pode imaginar ao que ela tem que se submeter.

Diante da situação, tive que falar-lhe de atitudes e palavras que a mãe deveria ter-lhe ensinado. Orientação sexual e comportamento feminino ante a dominação masculina. O que fazer? A quem recorrer? Como reagir?  

Conversamos sobre muitas situações da vida dela. Desde o inicio do namoro, a virgindade, a mãe, as irmãs, as colegas, e também sobre o marido, principalmente como rebater a argumentação dele de que quem ama faz tudo que o outro quer.

Ela riu quando eu disse-lhe: As mulheres ainda vão agradecer a Deus, ou a natureza, porque as narinas e o ouvido não cabe nada maior que um cotonete.

Passei mais tempo orientando-a para encarar o marido do que descobrindo que o Modem ADSL estava desligado. Mas valeu a pena. ´

Por fim a conclusão que cheguei, é que, nem todas tem estrutura sufiente para um relacionamento. Se lançam em uma aventura, como quê se a felicidade pertença apenas áquelas que tem marido, filhos entre outras coisas que a Grande Conspiração apregoa.

Elas, se subjugam a cada situação e a cada parceiros que agem mais como inimigos do que como amigos, “cumplices”, e estes querem a todo custo fazer valer o poder do segredo entre quatro paredes, para continuarem a oprimi-las, aproveitando da vergonha e o receio da exposição, a caricatura feminina, o estereotipo, etc. 

Torço para que certos ventos se apressem, para ver, se acaba com algumas situações veladas e ocultas de algumas criaturas.


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5 comentários em “Oprimidas.

  1. O mais importante de tudo é que voce conseguiu dela, o desabafo!! E isso pode ter representado o sepultamento dessa relaçao toxica, fracassada e, ou, o inicio de uma nova vida.

    Por que será que uma pessoa que é vitima de constantes agressoes psicologicas, violencia, continua num relacionamento pouco sadio? Percebo que com essa pergunta, nao achei resposta a mim mesma… De fato, quando alguem permanece numa relaçao na qual se sente diminuido, humilhado (odeio essa palavra), ofendido, é natural que duvide do proprio valor. Duvida da deterioraçao do respeito por si mesmo pois, vive numa relaçao em que se percebe desamada, maltratada, desvalorizada. Só que atras dessa aparente indiferença enconde-se um desejo profundo de amar e ser amada. E quando falta o respeito mutuo, aquele que é demonstrado de muitas maneiras: tanto daquilo que voce diz e faz, quanto, ao contrario, daquilo que voce nao diz e nao faz.
    Repito: O mais importante foi voce ter prestado atençao aos seus sentimentos, mostrando limites. Os limites sao uma forma de garantir que podemos ser nós mesmos…Eu ja vivi uma fase assim…Mas somos capazes de ir ao fundo desse poço e encontrar uma mola que nos devolve à superficie…Eu estive la…

  2. Querido Adão e AP!

    Um ode às nossas raízes nordestinas e à seus famigerados ditados: “quem tem pena é galinha”. Não me penalizo de pessoas assim, há sempre um caminho a seguir diante das bifurcações que a vida apresenta na nossa estrada. Mas há pessoas que preferem viver dubiamente, resignadamente e são felizes assim, ou fazem de conta que são. E viva as feijoadas e churrascos dominicais. Nada como arrotar a sua própria condição humana de não ser nada.

    É tudo tão óbvio e você fica no mais mais mais mais da vida, nem da vida, fácil culpar a vida, arrumar pretextos para o seu mais mais mais de seu próprio vazio interior. Eu aprendi a pensar, raciocinar, ser inteligente no meu amor proprio. Aprendi a escolher e ser feliz nas minhas escolhas. Posso ter errado? Sim. E quem não erra? Mas é tão bonito tentar acertar!!

    Ontem, fui almoçar com minha familia e amigos em um restaurante num bairro próximo. Passei pela lindissima igreja onde iria me casar e pensei: nunca agi errado em cancelar o casamento as véspera dele acontecer, afinal, o tempo me mostrou que ele já estava indo para a quarta união.

    Olha !!! Que bom que sua amiga encontrou conforto em tuas palavras, talvez ela aja e siga feliz em um novo caminho, talvez ela continue do jeito que está e coloque as coisas nos eixos, talvez ela nunca saia de sua condição de oprimida de si mesma. Mas ela nunca vai poder dizer que um dia alguém não sinalizou para ela o caminho a seguir.

    Mas quem tem pena é galinha.

  3. Queridas Beth e Ana Paula,

    Ainda que fique penalizado, movido de compaixão, o que posso fazer além de
    orientar, e mostrar o caminho a seguir? Ir lá e sacudir o sujeito, e exigir uma mudança dele? Não, não posso. Talvez até piore a situação.

    O inicio da solução está no ponto que vocês traçaram, ou seja, começa na pessoa que sofre a opressão. É ela que tem que sacudi o jugo, é ela que tem que agir.

    Por outro lado, chego ao terrivel pensamento de que elas simplesmente vivem a vida do elefante de circo.

    Quanto as palavras suas, quase que em unissono de que deve haver uma mudança de comportamento, de pensamento, atitude, vejo com desconfiança o interesse de uma minoria que são beneficiandos com a opressão social, mental, economica e também psicologica, afinal, as grades mais dificeis de se romper são aquelas que impomos a nossas mentes.

  4. Nossa, coitadinha. Fico com pena dela por muitos motivos. Primeiro, porque não acho verdade que ela não tenha a quem recorrer. Hoje em dia há até números de telefone para orientação à mulheres que passam por esse tipo de situação. Se não tem uma amiga com quem possa conversar, está na hora de ela rever as amizades dela. Ou procure um profissional. Uma pessoa isenta e distante emocionalmente (como vc foi), pode ajudar bastante.

    Dando palpites onde não sou chamada e sem detalhes para me aprofundar, acho que ela tem medo, ou pena, ou é por pura inércia não quer sair da situação em que se encontra. Posso ficar muito à vontade para dizer isso, porque eu já estive no lugar dela. Sofri no meu casamento porque meu ex me assediava psicológicamente, me diminuia, me traia. Demorei anos para tirar da cabeça a idéia de que era ruim om ele, pior sem ele. De onde tirei isso?

    Precisamos parar com essa de nos sentirmos inferiores, culpadas, menores. Isso é coisa do século retrasado. Precisamos admitir nossos problemas. Precisamos conversar sobre nossos problemas. Eu faço isso. Com amigas, com analista, no blog. Leio sobre o assunto. Me sinto importante. Me dou valor.

    Se a conhecesse diria: Meu bem, o ditado mais certo que já ouvi é “antes só que mal acompanhada” e não o contrário.

  5. Complicado o tema não é Adão?

    Complicado ainda para algumas falar sobre o tema. Mais do que opressão imposta por uma situação, ou por um parceiro (a), o que ocorre na verdade, é uma opressão de si mesma (o). O grande opressor de nossas vidas (não importa em que setor) somos nós mesmos.

    Bem, tenho encontrado pessoas bem felizes em seus novos caminhos traçados. Acho que é por isso que não consigo visualisar de forma sadia pessoas que vivem diariamente na sua auto-opressão. Não concebo qualquer outro comportamento que vá de encontro à esse flagelo de sentimentos. Mas dentro de 4 paredes só um casal pode falar sobre sua vida: as vezes o sexo é bom e vale a pena passar por tormentas, as vezes a comida na mesa é mais importante que sua dignidade, as vezes as contas pagas – o salão – as roupas são mais importante que o amor. Enfim, a gente só fica divagando, mas não é na gente que o calo aperta.

    Uma vez eu ouvi de uma grande amiga, no alto de sua sapiência de vida, uma viuvez e tendo que sustentar sozinha 4 filhos (somente pessoas assim eu escuto – são lições que valem a pena observar e sabeberar), mas ela disse: há mulheres que perdoam qualquer traição, qualquer uma, até mesmo a mais orgiosa delas, ela só não perdoa o amor que é dedicado a outra pessoa – e essa ausência de amor para ela e excesso para outra é capaz de enlouquecer essa mulher, mas mesmo assim ela é capaz de chegar às bodas só de pirraça.

    Sabe Adão…há pessoas assim, tanto mulheres como homens. E sempre haverão pessoas que colocam a sua dignidade no degrau mais baixo de sua escala de vida. O que é uma pena, pois perde-se tempo em ser feliz.

    Você disse: nem todas tem estrutura o suficiente para um relacionamento. Mas eu diria: nem todas (os) tem estrutura para entrar e sair de um relacionamento e encarar as feridas como grande aprendizado.

    O que importa é vivermos bem conosco mesmo …. mas boa sorte para a sua amiga e que ela se encontre o mais rapido possivel.

    Beijos saudosos amigos!
    estou cuidando dos outros cantos e esse findi foi meio agitado !!!

    PS: Obrigada por tuas palavras no canto poetico. Sabe àquele texto? Pois é…umas 3 pessoas vieram me falar que choraram com ele. Um amigo meu leu e disse: noooooooossa, que lindo! Mas eu ainda estou em guerra! kkkkkkkkkk ….. beijos meu amigo querido.

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