Depois do texto anterior, Desespero Infundado, recebi alguns correios e duas ligações de pessoas que ficaram preocupados comigo. Apesar do texto revelar fatos reais, é na verdade união de dois eventos diferentes.
Parte 1
Veja abaixo a imagem onde aconteceu um dos eventos:
Esta é a Pedra Bueno. Ela fica no centro da minha cidade natal: Nanuque, Minas Gerais. Onde a seta vermelha aponta, ou um pouco mais à esquerda, aconteceu uma tentativa de suicidio inusitado. Eu era ainda criança quando o fato aconteceu, mas, sei que foi um corre-corre na vila Esperança e também na cidade.
Ai nesta marcação com a seta vermelha existia uma pedreira e certo dia, uma jovem resolveu se matar pulando de uma determinada altura desta pedra. E para sua infelicidade ser completa aconteceu o seguinte:
- Ele não morreu com a queda;
- Com a queda, ele ficou preso numa fenda;
- Depois do ocorrido, ele desistiu de querer morrer.
Ficou entalado na fenda da placa solta e ficou sofrendo com os ferimentos. O sol em Nanuque parece ser mais quente do que em qualquer lugar da terra. O sol sobre a pedra e sobre ele, causou-lhe outro tipo de sofrimento. Ele gritava por socorro e pedia misericórdia o tempo todo. A situação dele não foi nada agradável.
Depois da loucura, souberam o motivo de tanto desgosto. Era homossexual. Apaixou-se por um amigo. Não podia declarar seu amor, pois, era ainda na época da ditadura militar. E, se, declarasse sua condição e amor, deduziu que não haveria correspondência por seu sentimento, e que também seria perseguido pela família do jovem, por sua própria família, e também pelas autoridades.
Diante desta situação, achou que a vida não tinha mais nenhum significado. Morreu algum tempo depois em consequencia dos ferimentos da queda e da desidratação que passou, mas, já arrependido, pedia para não deixa-lo morrer. Mas, não puderam ou não quiseram ajudá-lo.
Isto ocorreu quando eu era criança. E, desde então, sempre pensei na situação daquela criatura. O sofrimento que passou. A angústia que sofreu a ponto de ser capaz de agir de tal maneira.
Parte 2
Quando jovem, fiz parte de um grupo de jovens dedicados a várias atividades naturais. Muitas aventuras vivemos e produzimos. Uma vez ao ano, subiamos o alto da Pedra do Fritz. Não o faziamos como os alpinistas e escaldores profissionais. Veja aqui no site Escala Brasil. Nós subiamos pela parte mais fácil e segura.
A marcação em vermelho foi onde aconteceu o segundo relato.
Na primeira vez que fiz a subida, pelo lado oposto ao indicado, passei pela fazenda do Dr. Gabriel, e eu estava usando um Conga, tipico calçado da década de 70 e 80, um permudão de pano.
Ao atravessar a planicie de capim-colonião, minhas pernas ficaram toda riscada das serrilhas do capim. Ao chegar no topo da pedra do Fritz, o suor em contato com as pequenas feridas, causava-me uma dor intensa. Para piorar a situação, tivemos que adentrar num pequeno pedaço de terra no alto da pedra, e o contato com o capim-açu, fez a dor aumentar. Como não existe nada ruim que não pode ficar péssimo, começou a chover.
Atravessei correndo e deparei-me com a queda livre que marco na imagem acima. Despontei ali. E por pouco não precipitei abaixo. Não porque desejava, mas, porque vinha correndo para atravessar o capim que me causava o incomodo.
De imediato, peguei um gravatá, joguei a água gelada nas pernas. Lavei o sangue. Tirei a camiseta, e enxuguei. Causou-me uma alívio. Sentei-me e lembrei deste outro evento. Pensei naquela alma que penou por longos dias até o dia de sua partida. E, meditei na dor, na angústia que ele tenha sentido, a ponto de lançar-se daquela outra pedra.
Vive-se mais quem consegue se ver nos reflexos alheios.