Quando eu era criança, antes das Diretas Já!, antes do fim do regime Militar, as músicas que faziam sucesso tinham outros estilos. Erámos um país mais caipira, inclusive no estilo musical. Haviam músicas de faroeste com balas ricocheteando, bandido morto em duelo, preso pelo delegado sabido. Haviam músicas com histórias alegres e tristes. Muitos se lembram do Menino da porteira e o boi sem coração. A mamãezinha querida daquele outro gaúcho. E por ai vai.
Pois bem! Havia vários discos em casa. De Jackson do Pandeiro, The Police, Duran Duran, Caetano Veloso, etc. Havia um disco de uma dupla caipira que narrava a história de um pai pobre, analfabeto, trabalhador e esforçado ao ponto de formar o filho doutor, e no dia da formatura o referido filho envergonhado do pai, finge não conhecer. Até foi tema da novela da Griselda, mas, isto é coisa antiga.
Meu pai tinha este medo. D´eu, depois de terminado os estudos, sentir vergonha dele e de minha mãe. Desde aquele tempo me cobrava compromisso: Você vai estudar! Mas, me prometa nunca fazer isto? – Hoje eu sei qual era o tipo de medo de meu pai. É um medo estranho. Um medo de não reconhecimento. Um medo amparado pelas insegurança afetiva.
E por que lembrei disto hoje? É por que mudou-se as gerações. Mudou-se muitos valores. Mudou-se muito nas últimas décadas e ainda existem filhos que assim agem. Eu tenho um amigo chamado Bené. Ele trabalha de segurança lá em Nanuque e certo dia ele me confidenciou: – Todos os dias quando eu levo meus filhos na escola, eu beijo cada um deles. Mas, já está chegando o dia em que eles não vão querer, nem que eu os leve na escola. Então, eu não esqueço de beijá-los nenhuma das vezes.
Muitos pais também são assim. Sabem que chegará o momento em que os filhos não quererão mais serem tratados como crianças, exigindo que nós, os trate como adultos e como emocionalmente equilibrados, como se nós fossemos emocionalmente equilibrados, e socialmente ajustados, e sobretudo, que não fossemos emocionalmente dependentes de demonstração deste carinho, desta atenção, destas pequenas demonstrações de afeto e amor.
Eu ainda não disse porque da lembrança e o faço agora. No inicio da noite fui comprar SBP e comprar remédios para dor de cabeça. Aproveitei e trouxe uns miojos. Quando passava pela praça do Feijão ouvi os seguintes gritos: Pai! Pai! Paiiiiinho! – Olhei para o outro lado da rua e estava meu filho gritando e acenando para mim. Eu sou muito desleixado e jogado às moscas e as traças em se tratando de roupas, sapatos, chinelos. As vezes, sou convocado a voltar para trocar de roupa. Certa vez, tive que voltar da esquina quando minha esposa viu que eu estava indo com a roupa de dormir. Então, eu não estranharia meus filhos, as vezes, fingirem não me conhecer na rua. Eles são assim: gostam de mim, e me dão a coragem de pensar que não terão vergonha de mim depois de crescidos e formados. Mas, existem pais que fazem feio isto existe. Bem como existem filhos que mesmo sem motivos, sentem vergonha do que não é vergonhoso.
Ah! E meu filho gritou-me na rua por que estava com fome e me pediu dinheiro para fazer um lanche. Olhou as sacolas e inquiriu: não vai levando nada para eu jantar?
Quando cheguei pra estas bandas, lá pros idos de 1990, conheci, lá na região de Jacobina um certo homem.
Corpos e Almas