Jackson do Pandeiro cantava nos tempos antigos:
Como tem Zé na Paraíba…
Descobri também, que lá pras bandas da Paraíba e do Pernambuco, que o nome Maria, Maria José, e outras variantes e associações com o primeio nome Maria, é muito comum.
Hoje faço homenagem a todas as Maria´s que vivem nestas regiões. E nada melhor do que a história da Maria José que conheci fugindo mês passado pras bandas do Pernambuco, para homenagear e lembrar aos amigos e amigas visitantes da situação degradante que algumas marias vivem neste mundo.
Estava eu no ponto de condução, na pequena Serrinha, que fica a 22 quilometros de Timbaúba, quando o “transporte alternativo” parou.
Maria José desceu!
Esbaforida, a ponto de pensarmos que ela chegara correndo e não de automóvel. Com os olhos arregalados, olhava para todos os lados, como se esperasse um ataque iminente.
Logo que desceu quis saber:
- Que hora tem carro para Campina Grande?
- Daqui a pouco! – Respondeu o dono da lotação. – Com você e com esta senhora, só falta mais dois passageiros para completar a lotação.
Não esperamos mais do que cinco minutos e já estavamos em direção a outra cidade.
Chegamos em Juripiranga, uma pequena cidade da Paraíba. Na pequena Juripiranga, que significa, a ave que canta, pude conversar melhor com Maria José, pois, tivemos que esperar exatamente, uma hora e trinta e quatro minutos até o ônibus chegar; ficamos conversando e evitando um sujeito com olhos de gangão.
- E você está fugindo de quem ou do que?
- Menino – disse-me com o sotaque natural da região paraibana – estou fugindo do meu namorado, e não sei se volto a namorar com ele, acho que esse ai, já é ex-namorado.
- O que aconteceu entre vocês? – Indaguei, como todo curioso da vida alheia.
- Eu fui lá na cidade, aonde ele nasceu, e aonde a família dele mora. E ontem, estavamos num barzinho. bebendo e comendo. – Ela falava animada – comi um tanto de coisa que nunca tinha comido antes, caranguejo, siri, frutos do mar, e bebi umas bebidas deliciosas.
- Mas, você não tá fugindo por causa das comidas é?
- Nâââââo! – Enfatizou a negativa – é que eu levantei, e fui na beira da lagoa e perguntei para um homem o que era aquelas coisas do outro lado da lagoa, e o coitado me explicou que era as casas dos pescadores, e a luz fica refletida na água, e as pessoas de fora pensa que é um jardim, mas não é, é só as luzes das casas refletida na água.
A parte constrangedora e o pivô da fuga de Maria José foi o namorado ter se aproximado, e indagado a ela:
- O que você tá conversando com este homem?
- Nada! Só queria saber o que é aquilo lá?
- E tinha que vir conversar com ele? Porque não perguntou pra mim?
- Volta pra mesa sua vagabunda! Fica correndo atrás de macho pra ficar de conversinha! Cala a boca, e vá sentar.
Depois desta vergonha, Maria não dormiu. Passou a noite. Logo cedo, arrumou as roupas, pegou o filho que estava com ela, e deixando-o dormindo, fugiu. Por isto, estava nervosa e agitada, pois, imaginava que o dito agressor pudesser estar vindo a seu encalço.
Depois que entramos no ônibus em Juripiranga, ela acalmou-se. Quando chegamos na Paraíba, me agradeceu o apoio, e prometeu para ela mesma, terminar o namoro com este dito homem, evitaria qualque relacionamento com tais tipos, e ainda me pediu para dar um conselho ao filho dela.
Abraçou-me e despediu.
Maria José, como tantas outras lá da Paraíba, não aceitou o tratemento discriminatório, e agiu, o que nem sempre é fácil para as demais Marias deste mundo.
Abaixo, texto da Lei Maria da Penha, que apesar de achar desnecessária, pois bastaria aplicar as leis do código cível e criminal, e os direitos constitucionais já existentes, que seriam suficiente para ajudar muitas mulheres, filhos, filhas e outros humanos em situações degradantes. São com tais palavras que finalizo este texto.
Artigo II do Capitulo 2 da referida lei:
- A violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;
Raça, força e ação a todas as Marias da Paraíbas, do Pernambuco, e do território nacional e quiçá mundial, para enfrentarem, confrontarem, resistirem, vencerem atos de tais natureza em qualquer humano.