
No texto anterior, a Sarah comentou assim:
“Fico me perguntando porque quase não aparece homem carregando lata d’agua, quase não tem homens nas filas para mantimentos, onde estão os pais de tantas crianças????? (me refiro a reportagens) “
Eu estava pensando em escrever algo sobre os homens, e aproveito a oportunidade para repetir: “o sertanejo é antes de tudo um forte” – Euclides da Cunha
Encontramos diversos homens nesta viagem. Muitos são homens jovens. Sem alfabetização ou de baixa escolaridade. Aqui tem imagens de alguns homens do Nordeste!
Em sua maioria são homens de rosto carrancudo, com aspecto sombrio, marcados pelo tempo ainda que tenham pouca idade.
È dificil a sobrevivência.
Inteligência e imaginação, capacidade logística e planejamento (curto, médio e longo prazo) é exigido de todos eles para viver e sobreviver o dia-a-dia.
São homens formados e esmerado com o que há de mais cruel na vida: a falta de alimento e a falta de água. Eles sobrevivem e lutam todos os dias.
Dos “destinos” que se cruzaram com minha vida nesta viagem, a que mais me emocionou e que mexeu com meus sentimentos de compaixão foi a de Mudesto.
Toda a carga de feijão foi guardada em delegacias, e além de trancada era vigiada pela policia local.
Na cidade de Jurema, sul do Piaui, quando entramos na cidade, fomos recebidos pelo secretário do prefeito, que gentilmente nos conduziu ao galpão ao lado da delegacia onde a carga seria guardada e fortemente vigiada.
Antes do inicio dos serviços, chegou um homem até bem vestido.
- Senhor! – Disse a mim – eu já estava indo embora quando vi vocês vindo pra cá, eu preciso senhor trabalhar, e ter uns trocados, deixa eu fazer parte da turma que vai descarregar.
- Vou providenciar – disse a ele.
Porém, já estava tudo arranjado, e devidamente encaminhado para beneficiar um grupo seleto nomeado não sei por quem.
Eu e Eliseu assumimos a vaga dele. E asseguramos, que ele iria trabalhar e não sairia com as mãos abanando.
Foi o melhor de todos os homens que ali trabalhou! No momento de receber, porém, o policial disse que ele não tinha sido contratado, e que, o secretário do prefeito não tinha compromisso com ele, que trabalhou sem contrato, mesmo que verbal.
Os olhos dele marejaram. Empalideceu. E, Eliseu atalhou a conversa, e disse:
- Senhor secretário, esse homem ai é por minha conta, porque, eu sou um homem que meu pai ensinou a valorizar a palavra dada.
- Porque o senhor, o contratou?
- Porque eu quis contratar, porque, vi que ele tinha experiência em descarga.
O secretário ficou constrangido e pagou os R$ 10,00. Eu e Eliseu completamos o restante do dinheiro que ele precisava.
O restante do feijão que ficou no assoalho, eu sugeri que fosse dividido, entre os trabalhadores da descarga. Depois de devidamente limpo, sobrou dos 40.000 quilos de feijão, 3 sacos.
O policial negou a parte do Mudesto. E, tive que intervi junto a ele.
- Mudesto! Esse homem, (O policial) tem claras intenções de prejudicar você. Não entre numa disputa com ele por causa deste feijão.
- Mas, o senhor viu? Ele deu 1 saco para 3 homens. O outro saco ele deu pra aqueles outros 3, e não me deixou pegar nem o feijão do chão! – E em lágrimas veladas indagou quase num sussurro: – Porque esse povo não gosta de nós, meu Deus?
Mudesto mora a 3 léguas de distância da cidade de Jurema. Perdeu a condução gratuita, e só poderia voltar pra casa ao anoitecer. Ele optou para ficar e descarregar o feijão, porque segundo ele disse-me:
- Senhor, faz mais de mês que nós compramos algumas coisa lá pra casa;
- E sua família não recebe ajuda do governo não?
- Nosso povoado senhor, só é esquecido de todos. Lá ninguém tem ajuda não. Nem do presidente, nem do prefeito.
Depois de terminado o serviço, o policial ainda o ameaçou e repetiu diversas vezes:
- Quando você ver um miserável na beira da cova, não tenha pena!! Empurre o desgraçado e tampe o buraco. Estas desgraças não podem ser ajudadas!
Ele fez referência ao fato de eu e Eliseu temos aceitado a mão-de-obra dele.
Não bateu no Mudesto porque eu intervir duas ou três vezes. Ele provocou a tal ponto de o Eliseu pensar que o Mudesto estava errado, e havia arrependido de pagar uma diária (R$ 10,00) a mais para ele. Quando expliquei-lhe toda a história de perseguição e humilhação que ele impusera ao coitado, ele quis voltar e denunciar ao prefeito a conduta do policial.
Amigos, pra ser homem neste nordeste, o cabra tem que ser forte, e homem e meio. Quando um nordestino chegar por ai, saiba que é porque não teve nenhuma outra solução fácil ou díficil que ele não tenha buscado para solucionar seus problemas.
Lembre-se: “o sertanejo é antes de tudo um forte” – Euclides da Cunha
Se é díficil para as mulheres, para a maioria dos homens é díficil, duro, humilhante. A incerteza de tudo torna-os reféns de inescrupulosos homens impiedosos.
E as mulheres?
As mulheres em sua maioria é o motivo, é o bálsamo, o remédio, a inspiração pelo qual estes homens são tão fortes.
Sem mulher, não haveria homem algum que suportasse tal situação! No fim, ambos se sustentam.