São Raimundo Nonato, no Piaui.
O Bi-trêm apresenta alguns problemas com os pneus do “cavalo” e Eliseu é obrigado a literalmente colocar a mão na roda.
Enquanto Eliseu ajuda o borracheiro, eu fui a um pequeno mercado comprar picolé. O calor estava intenso. Observe a imagem ao lado da criança. Ela estava deitada no chão. Um ventilador por perto, e mesmo assim, ela ainda tá molhadia de suor.
O mercadinho Cactus Mandacaru, tem 4 corredores de prateleiras. Há uma boa quantidade de mercadorias, no entanto, enquanto estive lá, quase a metade da tarde, observei que além da Amanda, apenas a mãe dela trabalhava no local.
Depois de termos comprado alguns picolés e refrescos, já tinhamos algum grau de intimidade com a dona do estabelecimento, a senhora Teuma.
- Teuma, você fica o dia todo sozinha neste mercado?
- Sim! Desde as sete da manhã.
- E, porque não contrata alguém pra ajudar você?
- E quem é que quer trabalhar homem de Deus, se o governo dá tudo de graça pra eles?
- E, é?
- Minino, aqui, pra arranjar alguém, que quer trabalhar, é muito sofrido. Elas preferem arranjar um macho pra fazer uns três a quatro filhos nelas; e elas ganharem seus R$ 95,00 por cabeça, é quase o mesmo tanto de um salário minimo.
- Você faz tudo aqui?
- Tudinho! – Com o sotaque típico da região – Arrumo, recebo mercadoria, vou ao banco, limpo, atendo cliente, vendo, anoto, e tudo mais.
Eliseu veio chegando e foi logo pegando um sorvete no freezer, e ousado como sempre, quis saber do que estavamos conversando:
- É a poderosa Teuma, que é empresária, empregada doméstica, mãe, dona de casa, atendente, auxiliar de serviços gerais, empilhadeira… etc.
Teuma não permitiu tirar fotos dela.
Uma senhora se feições bonitas, entre 39 e 41 anos de idade, cabelos negros claros, porém, diz que não gosta de tirar fotos. Ela permitiu-me tirar duas ou três fotos da Lu-Amanda, sua filha e reclamou muito do governo.
Eliseu então voltou ao assunto dela contratar alguém:
- E nessa cidade não tem homem pra trabalhar não?
O que ela respondeu:
- Esse governo, meu filho, prefere sustentar esse povo com esse negócio de Bolsa Familia, e estes trouxas vivem dependendo deles. Quando acaba o dinheiro da Bolsa Família, vão pras portas das prefeituras.
- E o motivo deles fazerem tudo isto? – Indagou Eliseu!
- Ah! vai dizer que vocês não sabem??
Quando anoiteceu, ainda voltei ao mercadinho. Teuma estava saindo e pediu-me que ficasse com Lu-Amanda, uma vez que ela não queria abandonar a mãe que precisava sair para a escola.
- E tu ainda estuda mulher! – Exclamei rindo.
- É amigo! Eu também sou estudante, porque senão, acabo que nem eles, e isso, eu não quero não, já sofro demais, com o encabrestamento, agora encabrestar eu, isso eles não vão fazer não!!!
E subindo na moto, arrancou e foi para a escola, enquanto eu fiquei brincando com a filha dela Lu-Amanda.